O setor agropecuário brasileiro vive um início de ano desafiador em 2025. Segundo levantamento da Serasa Experian, o número de pedidos de recuperação judicial no agronegócio explodiu nos primeiros três meses do ano, totalizando 1.272 solicitações — crescimento de 138% em relação ao mesmo período de 2024. O que chama ainda mais atenção é o perfil dos requerentes: cerca de 45% são produtores rurais pessoa física, o que evidencia a fragilidade de parte expressiva da base produtiva.
Clima e Dívidas: Dupla Fatal
Entre os principais fatores estão as quebras de safra por eventos climáticos extremos, como secas prolongadas no Sul e calor recorde no Centro-Oeste. Muitos produtores contraíram dívidas altas durante o ciclo 2022/2023, apostando em preços elevados de commodities que não se sustentaram. Com a renda comprometida e sem acesso facilitado a crédito emergencial, o pedido de recuperação passou a ser a única saída legal para manter o patrimônio.
Os pequenos e médios produtores são os mais vulneráveis neste cenário. Muitos realizaram investimentos em maquinário e insumos contando com financiamentos bancários que agora não conseguem honrar. A alta dos juros no crédito rural desde 2023, combinada à elevação dos custos com fertilizantes, comprometeu a capacidade de pagamento em diversas cadeias produtivas, como leite, hortifrúti e algodão.
Recuperação Judicial no Agro: Uma Nova Realidade
Historicamente, o setor agrícola recorria pouco à recuperação judicial, por operar em ciclos curtos e com capacidade de resposta rápida. No entanto, desde a aprovação da Lei 14.112/2020, que modernizou a legislação de falências e permitiu a inclusão formal de produtores rurais, o cenário mudou. Só em 2024, mais de 600 recuperações de agricultores pessoas físicas foram registradas — e a curva segue em ascensão.
O aumento no volume de processos está pressionando os Tribunais de Justiça, especialmente nos estados do Paraná, Mato Grosso, Goiás e São Paulo. Juízes relatam dificuldades em avaliar casos com características tão específicas como safras, riscos climáticos e contratos com cooperativas. A judicialização da crise no campo exige maior especialização do Judiciário.
Bancos Reagem com Restrições
As instituições financeiras têm endurecido a concessão de crédito diante do aumento da inadimplência. Segundo a Febraban, o volume de crédito novo para o agro caiu 18% no primeiro bimestre de 2025. A falta de liquidez e o risco judicializado estão retraindo os financiamentos, agravando o ciclo negativo nas propriedades.
A explosão de pedidos de recuperação judicial no agro impacta toda a cadeia. Fornecedores de insumos, revendas, cooperativas e até agroindústrias já sentem os efeitos da inadimplência. A cadeia do leite, por exemplo, viu um aumento de 23% nos atrasos de pagamentos em relação a janeiro de 2024, de acordo com levantamento da Embrapa Gado de Leite.
Especialistas e entidades do setor, como CNA e OCB, cobram medidas emergenciais do governo federal. Entre as propostas estão renegociação ampla de dívidas, subvenção de juros, ampliação de garantias pelo FGO (Fundo Garantidor de Operações) e reestruturação do Plano Safra para dar fôlego aos produtores em dificuldades.
Educação Financeira e Planejamento
Consultores também alertam para a importância de educação financeira no campo. Muitos produtores não possuem gestão contábil organizada e desconhecem ferramentas de proteção como barter, hedge e seguro rural. A profissionalização da gestão é vista como passo essencial para evitar novas ondas de colapso financeiro.
A recuperação judicial no agro deixou de ser exceção e se tornou uma realidade cada vez mais frequente. Em 2025, o campo brasileiro precisa mais do que nunca de planejamento, assistência técnica e políticas públicas estruturadas. Caso contrário, o risco é de uma crise prolongada que pode comprometer não apenas produtores, mas a própria segurança alimentar nacional.
Fontes: Serasa Experian, Febraban, CNA, Embrapa, Valor Econômico, Estadão, Canal Rural, Notícias Agrícolas